2022.2
Aula Inaugural – Maria Rita Kehl
Dia 06 de agosto, sábado 11 horas
Valor R$ 50
Um iluminista sim, no sentido da proposta de livre pensamento tão chocante, para seu tempo, quanto aquela que fundamentou o século das Luzes.
Aquele médico esquisito propôs a suas pacientes histéricas que dissessem tudo o que lhes passasse pela cabeça. E elas confiaram nele. Limparam as chaminés assim como, mais tarde, um menininho fóbico e alguns homens que se tornaram famosos na teoria freudiana a partir dos animais que atormentavam. suas fantasias. Lobos. Ratos.
A alma, como entre os românticos do século anterior ao nascimento de Freud, designava em termos não científicos tudo aquilo que nos afeta, nos angustia ou nos anima. A novidade ou, para alguns, a “má notícia” trazida a partir das investigações freudianas é – ou foi, nos primórdios da teoria – a constatação de que a fonte mais importante das dores da alma brotaria do então desprestigiado desejo sexual e das fantasias que ele provocava no sujeito candidato à neurose. Essa foi primeira a surpresa ou, na opinião do próprio Freud, a “má notícia” que o criador da psicanálise apresentou ao ocidente. Outras se seguiram a essa. A da bissexualidade constitutiva de homens e mulheres, por exemplo. A das fantasias incestuosas que inocentes criancinhas dedicavam a seus progenitores. A de que, além do princípio do prazer que move a fantasia e as ações humanas, subjaz a pulsão de morte, com sua lei do mínimo esforço e sua demanda de gozo oceânico. Como um simples médico conseguiria tratar de deformações tão chocantes em relação aos padrões de normalidade da sociedade vitoriana? Simples: incentivando e permitindo o fluxo livre (na medida do possível) da fala de seus pacientes angustiados. Suspendendo a regra moral que impõe barreiras entre o que se pode e o que não se pode pensar – e muito menos dizer em voz alta a um cavalheiro desconhecido. Freud arejou os porões, os subterrâneos da liberdade. Sua “limpeza de chaminé” não foi uma faxina para exterminar pensamentos inconvenientes. Ao contrário, foi um convite para trazê-los à luz. A chaminé psíquica não foi dedetizada, pois a receptividade freudiana propunha que se tentasse ler os sinais de fumaça que o sujeito emitia através dela. Entre os detritos trazidos a luz durante a tal limpeza, se escondia o potente desejo que nos move a todos. Maria Rita Kehl